de – para
Alguém poderia objectar que quando mais a obra tende para a multiplicidade dos possíveis mais se distancia desse unicum que é o self de quem escreve, da sinceridade interior, da descoberta da sua própria verdade. Ao contrário, pergunto quem somos nós, quem é cada um de nós, senão uma combinatória de experiências, de informações de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objectos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis.
Italo Calvino
o imaterial num estado de potência
Yves Klein proprietário da cor e profeta do “vazio”, é a referência artística da noção de indeterminação incorporada por símbolos e seriada de momentos ideológicos, que se manifesta na procura progressiva do transcendente. O indeterminismo refere-se às temáticas de “absoluto” e “imaterial” presentes no trabalho de Klein, trata-se da “desconstrução” de barreiras físicas propostas pela experiência do lugar, num vínculo entre o corpo e espaço ausente de predefinição de tempo. Na mecânica quântica de Werner Karl Heisenberg, é abordada a impossibilidade de medir com rigor a trajectória de uma partícula subatómica, esta alude à indeterminação de precisão da sua velocidade e da sua posição. Este princípio, conhecido como “princípio da incerteza” ou “desigualdade de Heisenberg” levantou inúmeras questões sobre a noção de espaço e movimento da física clássica. Klein, tenta forçar a realidade através de uma experiência recíproca, em que o Homem e o mito criam-se um ao outro. O seu auto-retrato em “Un homme dans l’espace, Le peintre se jette dans le vide”, aponta para uma harmonia de auto-sublimação e abriu inegavelmente o caminho para uma arte prioritariamente fundamentada na imaginação. Joseph Kosuth consagrou Yves Klein como o fundador da arte conceptual. O “Happening”, a “Performance” e a “Body Art”, cada um à sua maneira, encontram-se estruturalmente relacionados com o seu trabalho. Neste processo, Yves Klein desempenha a função clássica do emissário, o proclamador de uma nova cultura – “invisível”, mas inegavelmente presente. Pierre Restany, crítico de arte francês sintetiza: “a febre dos neo-realistas é a febre da descoberta poética: a deslocação do “ready made” para a escala dos milagres modernos.”
determinação indeterminação
Oposição nascida nos debates pós-estruturalistas para traduzir a possibilidade de determinar o sentido de um texto — posição rejeitada pela maior parte dos teóricos — e a impossibilidade de tal sentido poder ser alguma vez e/ou de alguma forma fixo ou estabilizado. A determinação do sentido de um texto passa, na crítica tradicional, pelo próprio texto, que contém já em si de forma intencional o sentido que lhe foi atribuído pelo autor, e passa ainda pelo contexto que pode influenciar o sentido. A crítica pós-estruturalista chamou a atenção para o facto de que quer o próprio texto quer o contexto podem conter as incidências capazes de impedir essa (pré-)determinação do sentido.
http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/D/determinacao_indeterminacao.htm
trajecto de forma aberta
Respiramos, é tudo o que sabemos e sentimos. Para desanexar deste saber e sentir, não é necessário tomar nenhuma decisão, espontaneamente a respiração torna-se mais lenta, doseando cada vez mais o consumo de ar, até ficar monótona e imperceptível, perdendo cada vez menos a atenção que suga o encadeamento dos movimentos. Este estado particular de “observação” não dura muito, ameaçado pelo desincorporar vindo do indivíduo. Inesperadamente, emergem estados de ânimo, sentimentos, desejos, preocupações e até mesmo pensamentos numa mistura incoerente. Quanto mais aleatórios e indeterminados, quanto mais afastados do objectivo pelo qual se arriscou a procura, mais obstinadamente persistem, como se quisessem vingar pelo facto do processo tocar domínios que ele, de outra forma, não desconstrói, a não ser pelo percurso executado sem tempo comum. Mas também aqui se consegue neutralizar esta perturbação, se a respiração permanecer tranquila e despreocupada, o hábito de acolher as múltiplas manifestações, vai-se agregando uma dose de indiferença na intenção, até nos cansarmos. Assim se mergulha gradualmente num estado semelhante ao do indeterminado sonolento que precede o sono.
incorporar do gesto pelo acto
Da dança, Merce Cunningham conserva o gesto, não o produto. Apesar de ser possível consumir esteticamente o resultado do seu trabalho (aquilo que se chama a obra, a peça), apesar das produções de Merce Cunnigham se aproximarem (não podem escapar-lhes) de uma História e da Teoria da Arte, aquilo que é mostrado é um gesto. O que é um gesto? Qualquer coisa como o suplemento de um acto. O acto é transitivo, quer somente suscitar um objecto, um resultado; o gesto é a soma indeterminada e inesgotável das razões, das pulsações, das preguiças que rodeiam o acto de uma atmosfera (no sentido astronómico do termo), distingamos pois a mensagem, que quer produzir uma informação, o signo, que quer produzir uma intelecção, e o gesto, que produz todo o resto (o “suplemento”), sem forçosamente querer produzir alguma coisa. O artista (conservemos ainda esta palavra um pouco kitsch) é, por estatuto, um operador de gestos: quer produzir um efeito, e ao mesmo tempo não quer, os efeitos devolvidos, transtornados, fugidios, que regressam para cima dele e provocam desde então modificações, desvios, aligeiramentos do traço. Assim, no gesto abole-se a distinção entre causa e efeito, motivação e alvo, expressão e persuasão. O gesto do artista – ou o artista como gesto –não quebra a cadeia causal dos actos, o que o budista denomina o karma (não é um santo, um asceta), mas baralha-a, relança-a, até lhe perder o sentido.
acto
…Um acto subdivide-se em cenas, que, por sua vez, ainda se podem subdividir em quadros. Nas representações convencionais, a conclusão de um acto, porque simboliza o fim de uma fase da acção, é traduzido pelo cair do pano e por um intervalo, prática que se tornou comum a partir do século XVIII. Dentro de cada acto, o local da acção pode ser modificado (“Corre o pano de fundo e aparece a igreja de S.Paulo.”, diz-se em Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, na cena x do último acto), prática que antes do século XVIII não era seguida, por respeito à regra clássica de unidade de local dentro do acto. Hegel, na sua sistematização das artes, na Estética, considera que estes momentos do movimento dramático, como “fases da acção, são eles mesmos acções, de modo que a denominação de actos lhes convém perfeitamente…
Em, http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/A/acto.htm
finitamente grande infinitamente pequeno
Ao tentarmos reconstituir esta estranha cosmologia, este quebra-cabeças onde o desdobramento do tempo provoca o do infinito, deparamos com uma curiosa “concepção do mundo” em que o macrocosmo seria finito e o microcosmo sem fim, em que o espaço-tempo macroscópico seria perceptível, não apesar das suas dimensões, mas devido ao seu próprio gigantismo, ao passo que o espaço-velocidade microscópica seria imperceptível pela razão inversa. Por um lado, observamos portanto um tempo extensivo, o do infinitamente grande da duração (espaço-tempo), que se calcula em biliões de anos. Por outro, um tempo intensivo, o do infinitamente pequeno do tempo (espaço velocidade) que se conta em bilionésimos de segundo, e aqui a questão teológica do Génesis ou, se preferir, a questão ontológica dos primeiros minutos do Universo, tal como a formula o prémio Nobel Steven Weinberg, corre o risco de perder o sentido, pelo menos no domínio do “começo do tempo”.
Paul Virilio em, A inércia polar, Publicações Dom Quixote, Lda, Lisboa 1990, pp. 69
a inércia polar
Segundo Ernst March, o universo estaria misteriosamente presente em cada lugar e em cada instante do mundo… Efectivamente, se cada veículo móvel (ou automóvel) veicula uma visão específica, uma percepção do mundo que não é mais do que o produto da sua velocidade de deslocação no seio do meio ambiente, marítimo ou aéreo, cada uma das visões, das imagens (ópticas, sonoras) do mundo percepcionado representa por seu turno, inversamente, um “veículo”, um vector de comunicação inseparável da sua velocidade de transmissão, e isto desde a instantaneidade telescópica da restituição da imagem na óptica passiva das lentes da luneta de Galileu até aos nossos modernos “meios de telecomunicação”, à óptica activa da vídeo-informática.
Deixámos, assim, de poder distinguir claramente o veículo dinâmico do veículo estático, o automóvel do audiovisual – o recente primado da chegada sobre a partida, sobre todas as partidas e por conseguinte todos os trajectos, opera uma misteriosa conjunção – inércia do momento, de cada lugar e de cada instante do momento presente, no fundo análoga ao princípio de inseparabilidade, princípio de uma inércia que completa a coroa o da indeterminação quântica.
Paul Virilio em, A inércia polar, Publicações Dom Quixote, Lda, Lisboa 1990, pp. 38/39
the impermanent art (1952) – na procura da não-representação
If a dancer dances – which is not the same as having theories about dancing or wishing to dance or trying to dance or remembering in his body someone else’s dance – but if the dancer dances, everything is there. The meaning is there, if that’s what you want. It’s like this apartment where I live – I look around in the morning and ask myself, what does it all mean? It means: this where I live. When I dance, it means: this is what I am doing. A thing is just that thing.
In dance, it is the simple fact of a jump being a jump, and the further fact of what shape the jump takes. This attention given the jump eliminates the necessity to feel that the meaning of dancing lies in everything but the dancing, and further eliminates cause-and-effect worry as to what movement should follow what movement, frees one’s feelings about continuity, and makes it clear that each act of life can be its own history: past, present and future, and can be so regarded, which helps to break the chains that too often follow dancers’ feet around.
My use of chance methods in finding continuity for dances is not a position which I wish to establish and die defending. It is a present mode of freeing my imagination from its own clichés and it is a marvelous adventure in attention. Our attention is, normally, highly selective and highly editorial. But try looking at events another way and the whole world of gesture, the whole physical world in fact, is as if jabbed by an electric current.
Merce Cunningham em, Merce Cunningham: Fifty Years, Aperture 1997, pp. 86/87
vindo de um tal “sagrado”
Um actor, quando faz um gesto, está a criar para si próprio, em resposta a uma necessidade profunda, mas também para a outra pessoa. Não é fácil perceber a verdadeira função do espectador, que está lá e não está, ignorado mas necessário. O actor não trabalha para um público, embora tenha sempre um. A pessoa que observa é um parceiro que deve ser esquecido e, ao mesmo tempo, estar constantemente presente no espírito: um gesto é afirmação, expressão, comunicação; é uma manifestação privada de solidão; é sempre aquilo que Artaud descreveu como um sinal que atravessa as chamas – e isto implica a partilha da experiência, a partir do momento em que o contacto se estabelece.
Peter Brook em O espaço vazio, Orfeu Negro, pp. 71
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